REVOLUÇÃO ACREANA

CONHEÇA UM POUCO SOBRE A HISTÓRIA DO ACRE

O Acre

O estado Acre, capital Rio Branco, é o estado mais ocidental do Brasil, localizado no coração da Amazônia. Situa-se no sudoeste da região Norte, onde faz divisa com duas unidades federativas, estados do Amazonas e Rondônia, e com dois países, Bolívia e Peru. O Acre é composto por 22 municípios, com uma área territorial de 164.123,738 km² e uma população estimada, segundo dados do IBGE (2019), de 881.935 habitantes.

O clima é quente e úmido e as forças da natureza ditam as regras nessa pequena porção de terras brasileiras. Os rios são as veias que irrigam a vida diária do povo Acreano.

O Acreano é uma mistura bem temperada de povos indígenas com os nordestinos e um pouco de várias outras etnias. Um povo que lutou com as próprias mãos para conquistar a terra onde vivem hoje.

A seringueira

Antes da chegada dos exploradores estrangeiros na América do Sul, os índios, primeiros habitantes desta região, já conheciam as propriedades do látex extraído da seringueira (Hevea brasiliensis). A seringueira é uma planta da família Euphorbiaceae, de ciclo longo, lactescente, variando entre os 20-30 m de altura, com tronco de 30-60 cm de diâmetro, de ocorrência na margem de rios e lugares inundáveis da mata tropical úmida.

Nas seringueiras, o látex é colhido por meio de cortes diagonais que formam sulcos rasos no tronco das árvores. O instrumento usado para fazer os cortes consiste de uma lâmina afiada, com ponta em forma de gancho (faca de seringa).

A ocupação

A geografia do Acre favoreceu a sua ocupação pelos exploradores da borracha, que adentraram nas terras acreanas através da exploração dos rios Juruá e Purus. MAPA da Bacia amazônica.

A região que hoje denominamos Acre figurava nos mapas bolivianos da época com a denominação “tierras no descubiertas” (terras não desconhecidas). O território era habitados por comunidades indígenas.

As primeiras expedições ao território ocorreram na década de 1850, após a criação da província do Amazonas. Foram duas expedições, a de Manoel Urbano da Incarnação no rio Purus e a de João da Cunha Correia, no Rio Juruá. O mistério das “terras não descobertas” foi sendo decifrado passo a passo pelos exploradores. Em 1880 a expansão começa a alcançar o território do Acre. Os primeiros povoadores (não índios) começaram a ultrapassar a linha divisória imaginária que dividia o Brasil da Bolívia.

Vale lembrar que em 1867 o Brasil e Bolívia firmaram o Tratado de Ayacucho, que  (paralelo) estabelecia que toda a região que compreendia o Acre ficasse com a Bolívia. Entretanto, uma cláusula do tratado reconhecia a antigo direito estabelecido do uti possidetis (o mesmo evocado pelo diplomata Alexandre de Gusmão no século XVIII para dar o direito de posse à coroa portuguesa), dando margem aos futuros conflitos sobre a posse de terras e os limites fronteiriços.

Apesar dos limites fixados em 1867, os brasileiros seguiam penetrando no rumo oeste, rompendo a fronteira com a Bolívia numa larga extensão.
A rápida expansão dos seringuais era motivada pelos elevados valores que a borracha atingia nos mercados internacionais. Essa expansão ocorreu de forma frenética e em poucos anos os rios da região do Acre já estavam ocupados.
A força de trabalho utilizada na Amazônia e principalmente no Acre foi nordestina, pois nessa época, grandes secas (1877-1879) assolavam o nordeste brasileiro expulsando os trabalhadores do campo, pois estes não tinham como sobreviver.

Os retirantes nordestinos eram trazidos para Amazônia para facilitar a extração da borracha.
O seringalista também conhecido como barão da borracha, era o senhor dono do seringal com poderes absolutos, uma vez que não existia ordem jurídica, pois nessa época o território do Acre era uma terra de ninguém. A única lei que existia era a lei do 44 (alusão ao rifle winchester calibre 44).
Os seringueiros (nordestinos emigrantes) eram escravizados pelo dono do seringual através casa aviadora (local onde o seringueiro se abastecia de mantimentos).

Os valores dos produtos eram extremamente elevados e sem contar que o seringueiro já chegava ao seringal endividado, pois chegava devendo a passagem de barco de sua terra natal até o seringal onde ia trabalha.
A ânsia pelo ouro negro provocou uma reviravolta na vida das comunidades indígenas do Acre, pois muitos índios foram mortos em conflitos com os donos de seringal.

A disputa da Terra

01.

A primeira insurreição

As primeiras expedições bolivianas visavam uma forma de escoar a produção de borracha boliviana para o oceano atlântico.

Quando eles fizeram as primeiras expedições, eles descobrem que o território boliviano estava povoado pelos brasileiros em franca exploração da borracha.
Em 1898 um expedição chefiado pelo General Taumaturgo de Azevedo, contatou que os brasileiros que ali residiam seriam prejudicados e alertou o governo federal, porem as autoridades confirmaram a posse do território pertencia a Bolívia.
Em 1899 o ministro Boliviano Dom José Paravicini, vem para o Acre por via fluvial a partir de Manaus e estabelece uma alfandega no limite da linha de fronteira em um local chamado de Perto Alonso.

Ele implanta as leis e a moeda boliviana e adota a língua espanhola e iniciam a cobrança de impostos sobre a circulação de mercadorias. Paravissine da um prazo de seis meses para que os seringalistas brasileiros demarcassem seus seringais, pois ao término deste prazo os seringais não demarcados seriam confiscados pelo governo boliviano.
Nesse momento os barões da borracha, com o bolso ferido, se mobilizaram e decidem expulsar os bolivianos. Ocorre então a primeira insurreição Acreana.

Os bolivianos por estarem em menor número, aceitam a intimação dos brasileiros e vão embora abandonando o Acre. Estava aberta agora o caminho para a segunda insurreição Acreana.

02.

A segunda insurreição

Luis Gálvez Rodríguez de Arias, foi um jornalista, diplomata e aventureiro espanhol.

Já havia sido embaixador em Buenos Aires e até passou algum tempo no Rio de Janeiro. Foi provavelmente durante sua estadia nesta cidade que tomou conhecimento sobre os vultuosos lucros que os “barões da borracha” ganhavam na Amazônia. Ele se estabeleceu em 1897 em Belem e ganhou certa notoriedade entre alguns jornalistas e intelectuais.

Devido às suas relações com a diplomacia internacional, Galvez descobriu os interesses imperialistas do governo dos Estados Unidos na região, quando recebera a incumbência de traduzir um documento do inglês para o espanhol. Este documento continha informações sobre um acordo de comércio e exportação de borracha, através de um contrato de arrendamento do território do Acre com um sindicato de capitalistas americanos e ingleses, o denominado Bolivian Syndicate. O objetivo principal desse acordo era obter a concessão para exploração de uma grande área de terras através de um contrato firmado com o governo boliviano. Esta concessão feita pelo governo boliviano ao Bolivian Syndicate traria, consequentemente, prejuízos para os seringalistas brasileiros na região.
Luis Galvez, vai a Manaus e solicita uma audiência com o governador do Amazonas, Ramalho Júnior e revela os planos do Bolivian Syndicate para a região do Acre. Ramalho Júnior, fornece recursos financeiros, armas, munições, provisões, um navio especialmente fretado e equipado com um canhão e uma guarnição de vinte homens com o objetivo de tonar o Acre um estado independente. Galvez chega ao Acre e com a ajuda de seringalistas brasileiros, descontentes com a condição de serem agora “estrangeiros em sua própria terra” proclama no dia 14 de julho de 1899 em Puerto Alonso a República Independente do Acre, com ele próprio como Presidente.
Galvez instituiu as Armas da República, a atual bandeira, organizou ministérios, criou escolas, hospitais, um exército, corpo de bombeiros, exerceu funções de juiz, emitiu selos postais e idealizou um país moderno para aquela época, com preocupações sociais, de meio ambiente e urbanísticas.

Também baixou decretos e envia despachos a todos os países da Europa, além de designar representantes diplomáticos.
Em fevereiro de 1900 chega ao Acre uma frota da marinha brasileira para prender Galvez e devolver o território do Acre a Bolívia.

03.

A terceira insurreição

A breve passagem de Galvez pelo Acre, disseminou um clima de nacionalismo que impulsionou a terceira insurreição contra os bolivianos. Tem inicio então a expedição Floriano Peixoto ou como ficou mais conhecida a expedição dos poetas. Essa expedição não possuía nenhum preparo militar capaz de afrontar o exército boliviano estabelecido em Puerto Alonso.

Os atrapalhados boêmios não chegaram nem perto de intimidar os bolivianos, tudo não passou de uma empolgação e um conflito de egos. No primeiro dia de combate os poetas foram derrotados pelo exército boliviano e fogem deixando tudo para traz.

04.

A quarta insurreição

Era 1901 e a Bolívia tinha aparentemente assumido o controle da região.

Mas bastou a publicação de uma notícia bombástica para que os revolucionários acreanos voltassem à tona.

Chega a notícia aos seringalistas, de que o governo boliviano finalmente assume que existe um acordo sendo elaborado com empresários Norte Americanos Ingleses para a formação de uma companhia chamada de Bolivian Syndicate.

Este contrato de arrendamento figura como uma das primeiras tentativas de intervenção internacional na Amazônia.
Os brasileiros se apressaram para iniciar um novo movimento revolucionário antes que o Bolivian Syndicate se instalasse na região. Como grande parte dos movimentos anteriores fracassara por causa de falta de experiencia militar, os revolucionários convidam o gaúcho José Plácido de Castro, que já se encontrava no território do Acre, para comandar uma nova etapa do movimento armado e decididamente militar e que somente um homem com experiência nessa área poderia comandar.
Plácido de Castro era descendente de uma família de militares: o pai, capitão Prudente da Fonseca Castro, havia lutado na Guerra do Paraguai; o avô, José Plácido, nas Guerras Cisplatinas; e o bisavô, Joaquim José Domingues, participara da ocupação das Missões, quando da integração desse território ao Rio Grande do Sul.
Plácido de Castro tinha participado da guerra civil de 1893 a 1895 no seu Estado natal, o Rio Grande do Sul; ao lado dos maragatos³. Dos feitos em batalha ele foi promovido ao posto de major. Plácido de Castro foi para a capital do Brasil, então a cidade do Rio de Janeiro, fazer alguns cursos no Colégio Militar. Particularmente ele se interessava por Geografia e fez curso de agrimensor.

Após deixa a vida Militar Plácido de Castro a convite de um amigo decidiu ir para o norte do Brasil, para aquela região que poderia dar-lhe a estabilidade na vida que tanto sonhava exercendo a função de agrimensor nas terras do Acre. Contaminado pela onda de revolta que toma conta dos brasileiros, Plácido participa, em julho de 1902, da reunião que forma uma Junta Revolucionária, cujos objetivos eram a independência do Acre e sua integração ao Brasil. A Plácido de Castro foi entregue o comando militar do grupo.
O movimento organizado, com as datas fixadas e contatos estabelecidos, ocorreu, no dia 6 de agosto de 1902 deu-se o início da guerra, com a tomada de Xapuri a cidade mais antiga do Acre. As guarnições enviadas de La Paz não conseguem debelar a revolta, pois os seringueiros, instruídos e comandados por Plácido, utilizam táticas de guerrilha e surgem inesperadamente do meio da floresta, fazendo ataques relâmpagos.
Entre agosto de 1902 e janeiro de 1903 foram travadas dezenas de batalhas. A guerra começou na cidade de Xapuri e em poucos meses depois, teve como palco da ultima batalha a cidade de Puerto Alonso, o último reduto boliviano. A estratégia de Plácido de Castro de isolar o exército boliviano deu certo. Os combates duram três dias de duros combates, que culminou com a rendição dos bolivianos no dia 24 de janeiro de 1903. Nesse dia, Plácido de Castro proclama o estado independente do Acre.
A revolução acreana não pode ser vista apenas do ponto de vista dos combates. Todos os brasileiros ali residentes estavam envolvidos. A produção da borracha e o cuidado dos povoados foi entregue as esposas dos seringueiros, enquanto os homens participavam das batalhas.
O Acre foi definitivamente anexado ao Brasil em 17 de novembro de 1903 com a assinatura do Tratado de Petrópolis, graças a habilidade de negociação do ministro de relações exteriores do Brasil o senhor Barão do Rio Branco que agiu com cautela e astúcia para dar um fim à questão do Acre. o governo brasileiro indenizou a Bolívia em 2 milhões de libras. O Brasil assumiu também a obrigação de construir uma ferrovia "desde o porto de Santo Antônio, no Rio Madeira, até Guajará-Mirim, no Mamoré", com um ramal que atingisse o território boliviano. Era a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.
O Acre se transformou no primeiro território federal do Brasil, e em 1962, o presidente do Brasil, João Goulart, assinava em Brasília a lei criada pelo deputado federal, Guiomard dos Santos que elevava o então território federal do Acre à categoria de estado.